Avaliação:9
Uma História de Amor e FúriaÉ ótimo ver o cinema nacional ousar e arriscar em uma animação com a temática mais adulta, ainda mais quando estão envolvidos problemas políticos e sociais que marcaram a história do Brasil. Em “Uma História de Amor e Fúria”, a grande estreia do premiado Luiz Bolognesi na direção de um longa traz toda a sua experiência como roteirista de“Bicho de Sete Cabeças” (2001), “Chega de Saudade” (2008) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) para criar uma animação que tem tudo para se tornar um marco no cinema brasileiro.
Selton Mello e Camila Pitanga dublam os protagonistas, o casal apaixonado que transcende o tempo em quatro épocas distintas de conflitos armados. O filme tem início na colonização e narra um pouco da história dos índios tupinambás que são dizimados pelos portugueses na região, onde hoje é a cidade do Rio de Janeiro; após 200 anos é contada a história do início da balaiada, revolta de escravos no Maranhão que deu origem ao surgimento do cangaço no nordeste do Brasil.
Anos mais tarde, Janaína, personagem de Camila Pitanga, encontra seu amado durante a ditadura militar em Maio de 1968, e mais uma vez, o amor entre eles é posto a prova em uma época que sentencia a vida de presos políticos. Em 2096, o foco é a luta por água potável e faz um contraste criativo com as milícias que impõe a lei e a ordem do município e o povo marginalizado escondido das altas classes sociais.
Por mais que seja uma animação, a veracidade com o que aborda as guerras e a opressão passada pelos brasileiros ao logo dos séculos é algo belíssimo, mostrando assim o lado daqueles que foram oprimidos por essas lutas e não os generais que ganharam monumentos em honra dos seus feitos e causaram grande sofrimento a uma minoria. A direção de arte de Anna Caiado de fato é algo para se destacar, por mostrar o sofrimento e o surgimento de várias frentes revolucionárias que são pouco lembradas com o uso de ilustrações que relembram as regiões contadas na história, como da cidade de Caxias, no Maranhão, e do Rio de Janeiro nos anos 60.
Toda a trama é contada pelo ponto de vista do personagem de Selton Mello e faz uso de fatos para contar uma história de amor entre duas pessoas que lutam, não só para ficarem juntas, mas para serem livres. O longa vai contra a corrente e foca sua atenção nos mais velhos, embora também possa agradar aos jovens com seus belos traços e com sequências de ação e sexo. Baseado em H.Q, a animação tem cenas fortes que usa o 2D tradicional e CGI, além de imagens geradas em computador feitas em três dimensões. As sequências em CGI ficam mais claras quando a trama vai para o futuro ou mesmo nas cenas de ação e movimentos rápidos. Porém, quando a animação está mais lenta, ou é necessário se focar no diálogo, todos esses efeitos visuais se esvaem, e o filme perde a força.
Como toda animação, a trilha sonora tem seu destaque com a participação de bandas como Nação Zumbi, Otto, Cidadão Instigado e Rappin’ Hood.  As letras têm sempre conteúdo político e crítica social com mistura de sons eletrônicos, maracatu e ritmos regionais para dar uma batida mais frenética nas cenas de ação e poesias nas sequências de romance entre Janaína e o Jovem centenário. É interessante, já que a música ganha destaque justamente na transição de tempo entre uma época à outra. O som futurista para o Rio de Janeiro em 2096 mistura o eletrônico com melodias de bossa nova e batidas rápidas para as cenas de ação e conflitos.
O enredo é bem construído e ver a história do Brasil contata de forma tão clara e tão bem arquitetada em animação mostra uma nova área cinematográfica que precisa ser mais explorada e, quem sabe, ampliada em nosso País.
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Adriana Cruz é formada em Relações Públicas pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (FAPCOM), aspirante a cineasta e estudante de roteiro cinematográfico. Correspondente do CCR em São Paulo.